Talvez o maior problema do Brasil não esteja apenas na política. Talvez esteja em nós.

Tem uma coisa que sempre me chama atenção durante uma campanha política: mais do que conhecer candidatos, propostas e ideologias, eu gosto de observar as pessoas. As redes sociais, nesse período, parecem se transformar em um grande espelho. Um espelho que, às vezes, mostra coisas bonitas, mas que também revela aquilo que preferimos não enxergar.

É curioso perceber como as ideologias ficam afloradas. Pessoas que no cotidiano parecem tranquilas, educadas e tolerantes passam a defender suas convicções com uma intensidade que, muitas vezes, ultrapassa os limites do respeito. E, no meio dessa disputa, aparecem o preconceito, o egoísmo, a intolerância, a hipocrisia e uma preocupante falta de empatia.

O que mais me incomoda é perceber como muita gente olha para a política apenas a partir da própria realidade. Pensa no imposto que vai pagar, no benefício que pode receber, no preço que pode diminuir, no que vai melhorar para sua família. E, claro, é natural pensar nos próprios interesses. O problema começa quando deixamos de enxergar que existem milhões de pessoas vivendo uma realidade completamente diferente da nossa.

Eu me pego pensando nas pessoas que nasceram sem as mesmas oportunidades. Naquele jovem que não teve uma boa escola, na família que precisa escolher entre comprar comida ou pagar uma conta, em quem precisa trabalhar desde cedo, em quem nunca teve acesso às mesmas possibilidades que outras pessoas tiveram simplesmente porque nasceu em outro lugar ou em outra condição.

Às vezes parece que perdemos a capacidade de fazer uma pergunta muito simples: “E se fosse comigo?”

Talvez essa pergunta fosse suficiente para mudar algumas conversas. Porque quando pensamos que poderia ser conosco, talvez sejamos mais capazes de compreender que ninguém escolhe completamente o lugar onde nasce, as oportunidades que recebe ou as dificuldades que precisa enfrentar.

Não acredito que o problema do Brasil esteja somente nos políticos. Eles fazem parte da sociedade que os elege, assim como nós fazemos parte da sociedade que construímos todos os dias. Se queremos um país mais justo, talvez também precisemos olhar para nossas próprias atitudes, para os nossos preconceitos e para a maneira como tratamos quem pensa diferente ou vive uma realidade distante da nossa.

A política deveria ser, entre tantas coisas, uma oportunidade de discutir que país queremos construir. Mas, às vezes, ela acaba revelando justamente o quanto ainda precisamos aprender a conviver com as diferenças.

No fim, candidatos passam, governos passam e eleições terminam. As ideologias também podem mudar com o tempo. Mas aquilo que fazemos com o outro permanece como uma espécie de marca na sociedade. Talvez seja por isso que, para mim, acompanhar uma campanha política seja também observar um pouco da alma do Brasil. E algumas vezes o que vejo não me deixa indignado com a política. Me faz refletir sobre nós mesmos.

Porque um país não é feito apenas por seus governantes. É feito também pela maneira como seus cidadãos enxergam aqueles que estão ao lado, principalmente aqueles que têm menos, que pensam diferente e que não tiveram as mesmas oportunidades.

Talvez o Brasil precise mudar na política. Mas talvez precise, antes de tudo, recuperar um pouco da humanidade.

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