Walder Wolf

Nas Águas de Cametá, Nossa Arte Navega

O Carnaval das Águas, em Cametá, não é só uma festa. É um pedaço vivo da nossa história. Uma manifestação que atravessa gerações, que resiste há mais de 100 anos e que carrega nas correntezas dos nossos rios a força da cultura paraense, da ancestralidade amazônica, da diversidade LGBTQIAPN+ e do compromisso com a preservação do nosso planeta.

Estar ali, no meio do povo, vivendo tudo aquilo, foi mais do que especial. Foi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória. E foi justamente nesse cenário mágico, nas águas do meu lugar, que eu decidi gravar o clipe da minha música “Nosso Planeta (O Pará Tá No Clima)”. Uma canção que fala sobre cuidado, sobre amor pela nossa terra, e sobre a responsabilidade que todos nós temos com o futuro do nosso planeta.

Gravar esse clipe não foi só apertar o rec. Foi um mergulho profundo na essência de quem eu sou. Foi entender, mais uma vez, que a minha arte nasce daqui, do meu povo, da minha cultura, da força dos ribeirinhos, dos batuques, das fantasias e dos sorrisos que cruzam os rios durante essa celebração.

Fui recebido de braços abertos pelo Cordão “Quem São Eles na Folia”, que me acolheu com tanto carinho e verdade, que eu me senti parte daquele corpo coletivo que dança, canta e resiste. Nunca vou esquecer aquele momento — os olhares, os abraços, os sons, os gestos. Tudo pulsava vida.

E quando falo do Carnaval das Águas, eu também faço questão de reconhecer e celebrar a existência de tantos outros cordões e blocos tradicionais, que fazem essa festa ser o que ela é: Linguarudos do Santana, Cordão da Bicharada, Os Bambas da Folia, Cordão de Mascarados Última Hora do Rio Tentém e tantos outros, que seguem firmes, levando alegria, resistência e identidade para as águas e para as ruas de Cametá.

Estar ali, gravando esse clipe, foi um ato de amor. Um compromisso com a minha própria história, com a cultura da Amazônia e com a minha missão como artista. Eu acredito, de verdade, que fazer arte com propósito, com o nosso povo, é uma forma poderosa de dizer ao mundo que a cultura da Amazônia não precisa de tradução, ela precisa de valorização, principalmente por quem é da nossa região, nem tudo que é bom vem lá de fora!

E eu falo isso porque, infelizmente, ainda vejo muita gente que diz amar a cultura, mas na prática não apoia, não fortalece, não reconhece. Eu sou um artista que vive o que fala. Eu sou o que eu canto, eu sou o que eu entrego. E estar no meio desse povo, no meio dessas águas, foi dizer, em alto e bom som: A Amazônia canta, dança e resiste nas águas, nas ruas e no coração.

Que o mundo veja. Que o mundo ouça. Porque a nossa arte navega forte. E ela não vai parar.

Foto: Bimba Neto

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